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Pecuária mais sustentável divide espaço com atividades ilegais na Amazônia

29/08/2020

 

O desejo de Mauro Lucio Costa era fazer a coisa certa pela maior floresta tropical do mundo. Por décadas, o pecuarista de terceira geração da região Norte do Brasil acompanhou com culpa sua indústria, que alimenta o crescente apetite global por carne bovina, devastando a selva cada vez mais. Aos poucos, passou a experimentar técnicas de pastagem que hoje fazem de sua fazenda uma das mais eficientes do país, tornando-se um modelo para quem acredita que a carne bovina pode ser produzida de forma lucrativa e sustentável —até mesmo na Amazônia.

 

Como uma chamada “fazenda de terminação”, a propriedade de Costa é a última parada feita pelo gado em uma cadeia que começa com os criadores de matrizes e frequentemente inclui estadias em diversas outras fazendas antes que os animais estejam desenvolvidos e prontos para o abate. Desejando fazer mais —e também incentivar outros membros da indústria rumo à sustentabilidade—, em 2017 Costa decidiu comprar gado apenas de criadores que pudessem provar que não atuavam em áreas desmatadas ilegalmente. Ele pediu a um consultor para que verificasse sinais de desmatamento em propriedades de fornecedores, utilizando mapas de satélites e uma lista de propriedades embargadas pelo governo. Mas depois de apenas um ano, seu esforço falhou.

 

Costa percebeu que quase metade de seu gado vinha de fornecedores com histórico de violações ambientais ou cujos títulos de propriedade e outros documentos eram tão questionáveis ​​que não era possível chegar a uma certeza. Para que cumprir seu plano, segundo Costa, ele não conseguiria manter o tamanho da criação e produzir carne suficiente para obter lucro. “Não posso sabotar meu negócio por algo que ninguém mais faz”, disse Costa à Reuters, cercado por pastagens emolduradas pela floresta tropical. Um chapéu Resistol de aba larga, lembrança de viagens ao Texas, protegia seu rosto do sol. A fivela de seu cinto em alto relevo, também texana, brilhava com seu nome e o de sua fazenda —Marupiara, termo indígena que significa algo como “lugar de caça feliz”.

 

A confissão, de um fazendeiro tão “verde” que se dirigiu aos participantes de uma conferência climática da Organização das Nações Unidas (ONU) no ano passado, ilustra as dificuldades para o desenvolvimento responsável na floresta amazônica. A tentativa de Costa foi coberta por empecilhos que há muito impedem a ordem na vasta e indisciplinada região —dos registros de terras controversos à aplicação pouco rígida da lei, passando pelo funcionamento obscuro da indústria de carne bovina brasileira, na qual o gado, com pouco ou nenhum monitoramento governamental ou do setor, é criado e engordado em uma série de propriedades.

 

Dessa forma, pode ser impossível para pecuaristas como Costa saber ao certo de onde seus animais vieram.

Em muitos outros grandes países produtores, como os Estados Unidos, o gado circula menos, vivendo mais tempo em uma só fazenda e sendo alimentado, em geral, com grãos e rações preparadas. Mas no Brasil, o gado continua sendo alimentado principalmente com pasto, fazendo com que mais áreas sejam utilizadas e levando fazendas a se especializar em etapas específicas do desenvolvimento dos animais.

 

Embora a lei brasileira —em teoria— considere crime a criação de bovinos em áreas desmatadas ilegalmente, há poucos mecanismos que ajudem os compradores a identificar a origem dos animais. Assim como o dinheiro, o gado muitas vezes é “lavado”, passando de pastagens que violam as leis ambientais para a cadeia legal de oferta, e em seguida para os supermercados e mesas de todo o mundo. “Há um buraco enorme no sistema”, afirmou Paulo Barreto, um dos principais pesquisadores de uso de terras na Amazônia. “Nenhuma processadora de carnes pode afirmar que seu gado é livre do desmatamento.”

 

Lista Negra 

 

Há mais de 37 mil locais sancionados pelo Ibama por crimes ambientais nos Estados amazônicos. As multas têm como objetivo incluir áreas na “lista negra” do uso comercial até que os proprietários replantem a floresta desmatada. Mas na prática, elas não fazem muito mais do que forçar que fazendeiros como Berta caminhem para a clandestinidade.

 

Para o metódico Costa, a preponderância da pecuária ilegal atrapalhou seu esforço para garantir uma oferta “limpa”.Cerca de um terço de seu gado, pelos cálculos dele, é oriundo de terras sancionadas.  Outros 15% vêm de propriedades com escrituras e documentos que não condizem com os registros públicos, o que impossibilita que Costa verifique essas terras nas listas de embargo.

 

Em sua caderneta, a matemática esclareceu as coisas. Para recuperar os investimentos no preparo das pastagens, todo ano Costa precisa aumentar a contagem de seu rebanho de cerca de 1.700 cabeças para 2.500 cabeças assim que o período de chuvas começa, geralmente em meados de dezembro.

 

O momento é importante por ser quando o gado aproveita a súbita aceleração do desenvolvimento do pasto trazida pela chuva.Se o rebanho é muito pequeno, parte da grama vai para o lixo. Se a janela for perdida, Costa precisa gastar ainda mais para comprar ração.

 

Proibindo fornecedores de gado reconhecidos ou suspeitos de desmatamento ilegal, Costa percebeu que o rebanho não atingiria a massa necessária para “as águas”.Em vez de seu tradicional lucro de cerca de 85 dólares por animal, Costa sofreria um prejuízo de cerca de 50 dólares por cabeça. “Simplesmente não funcionaria”, explicou.

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