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Boicote a soja brasileira de área desmatada vira alvo de campanha britânica

10/10/2019

 

Ambientalistas passaram a cobrar que as maiores redes de fast food do Reino Unido boicotem a soja exportada pelo Brasil e usada para alimentar os animais transformados em comida por essas empresas. Em 2018, os britânicos importaram quase 240 milhões de libras em soja (ou R$ 1,2 bilhão) do Brasil. Isso equivale a quase 30% — 761 mil das 2,5 milhões de toneladas — da importação média anual de soja do país, a maioria voltada à pecuária. Apenas 14% desse total têm certificação de "desmatamento zero", segundo a Iniciativa de Comércio Sustentável (STI, na sigla em inglês), uma das menores taxas da União Europeia.

 

Ricardo Salles, ministro brasileiro do Meio Ambiente, afirmou ao programa da BBC Victoria Derbyshire que qualquer tipo de boicote só pioraria a situação. "Nós precisamos de um desenvolvimento econômico sustentável", defendeu o ministro.  Para a organização não governamental Greenpeace, que promove o boicote, esses grãos estão ligados às queimadas das florestas brasileiras e não deveriam ser importados enquanto o meio ambiente não for respeitado no país sul-americano. "Todas as grandes redes de fast-food usam soja para alimentar animais, e nenhuma delas sabe de onde ela vem, a soja é um dos maiores motores de desmatamento ao redor do mundo", afirmou Richard George, chefe do setor de florestas do Greenpeace.

 

Restrições à soja

 

Ambientalistas e especialistas afirmam que as queimadas na região da Amazônia e do Cerrado brasileiros são provocadas por pessoas interessadas em liberar a área para criar animais e plantar soja. Em 2019, o número de focos de incêndio ultrapassou 144 mil, alta de 50% em relação ao mesmo período no ano anterior — mas bem menor que o patamar atingido em 2010. O Greenpeace e outros grupos ambientalistas participaram de um processo iniciado em 2006 que levou a diversas restrições ao plantio de soja na Amazônia. Grandes empresas aceitaram deixar de comprar de fazendas ligadas a áreas recém-desmatadas.

 

Conhecido como "moratória da soja", o pacto foi firmado entre governos, agroindústria e organizações de defesa ambiental. No ano passado, balanço divulgado pelo Ministério do Meio Ambiente mostrou que a política deu resultados: a média anual de desmatamento nos 89 municípios participantes caiu 85% depois do acordo. No entendimento de pesquisadores e ambientalistas, acordos como a moratória da soja têm mais eficácia do que leis justamente por serem pactos firmados entre os setores envolvidos - e não regras verticais que precisam de fiscalização de órgãos públicos.

 

Só que ativistas dizem que esse pacto "empurrou" o problema para outra região, o Cerrado, ecossistema bem menos protegido que o amazônico. Em outubro de 2017, 23 companhias britânicas, incluindo a varejista Tesco e o braço britânico da rede multinacional de lanchonetes McDonald's e, assinaram o Manifesto do Cerrado, que reconhecia a necessidade de evitar o desmatamento. Por outro lado, a Cargill, principal importadora de soja brasileira no Reino Unido e intermediária entre agricultores e empresas alimentícias, ainda não assinou o documento.

 

A empresa é responsável por 78% da soja oriunda do Brasil, segundo dados da Trase.Earth, que atua ao lado de ONGs. A Cargill afirmou à BBC News que o número é impreciso e inflado. Em julho, a Cargill afirmou a fornecedores brasileiros que não apoiaria um boicote à soja plantada em áreas recém-desmatadas no Cerrado, posição que irritou ambientalistas. "Continuamos comprometidos com a moratória da soja na Amazônia, mas acreditamos que essa não é a melhor solução para o Cerrado", afirmou uma porta-voz da empresa. "Ao empurrar os agricultores para outros compradores, as mesmas práticas continuarão."

 

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