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Olhares globais à Amazônia, mas Cerrado e Pantanal também ardem em chamas

14/09/2019

 

Enquanto o mundo olha com atenção para o desmatamento e as queimadas na Amazônia, outros dois biomas brasileiros, o Cerrado e o Pantanal, também queimam em proporções maiores que nos últimos anos, resultado das mesmas políticas de desmatamento que assolam o norte do país. Os dados de queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que o Pantanal fechou o mês de agosto deste ano com 4.660 focos de incêndio, 235% mais do que no mesmo período do ano passado e 50% a mais do que a média histórica entre 1998 e 2018.

 

Nos primeiros dias de setembro, os focos chegaram a 1.495, 4 vezes mais que no mesmo período de 2018.Na última quinta-feira, o governo do Mato Grosso do Sul —Estado que concentra o bioma Pantanal— decretou estado de emergência depois que mais de 1 milhão de hectares, segundo o Ibama, terem sido consumidos pelo fogo.Corumbá (MS) é hoje a cidade com mais focos de queimadas, 3.180 —597% a mais do que no mesmo período de 2018.

 

No Cerrado, o fogo também vem consumindo a vegetação nativa em velocidade mais acelerada que em 2018. Em apenas 8 meses e meio, já são 37.055 focos, próximo dos dados do ano inteiro de 2018, que alcançaram 39.449. Os focos de incêndio no bioma em setembro, época em que normalmente já tendem a diminuir, estão 76% maiores que no ano passado, chegando a 9.520. Na Amazônia, depois da crise internacional, este mês registrou até agora 9.262 focos. “O fogo causado por ações humanas, acidentais ou propositais, ocorrem todo ano, até mais de uma vez por ano, e no auge da época seca, abrangendo áreas muito extensas, milhões de hectares como atualmente, impacta/destrói qualquer ecossistema”, disse à Reuters Alberto Setzer, coordenador do programa de queimadas do Inpe.

 

Uma combinação de uma seca mais forte do que o normal nas duas regiões e uma onda de calor ajudam as queimadas a se propagarem no Pantanal e no Cerrado, mas a origem é, como quase sempre, a ação humana.“Nos cerrados e nas savanas o fogo é um elemento natural do ecossistema. Mas não existem plantas adaptadas ao fogo, mas a um regime de fogo, que depende do intervalo das queimas, da intensidade, da época do ano”, explica a pesquisadora da Universidade de Brasília Mercedes Bustamente, especialista em ecologia de ecossistemas.“Se essa região começa a queimar muito frequentemente, as árvores e arbustos começam a morrer, vai abrindo a área e ficam as gramíneas, que se recuperam mais rapidamente, mas trazem mais material combustível.”

 

As pesquisas com o Cerrado mostram que a vegetação maior se favorece de queimadas a um intervalos não menores de quatro anos e quando acontecem no início da estação seca. Mercedes explica que um mês de setembro —quando as plantas já começam a nascer as folhas para se preparar para a estação úmida— com um alta proporção de queimadas, dificulta muito a regeneração. Ao contrário da Amazônia, o Cerrado brasileiro tem uma proteção de apenas 20% da sua área por propriedade, de acordo com o código florestal. Um proprietário de terras da região —que inclui Goiás, Tocantins, parte do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e até Maranhão— precisa preservar apenas 20% da sua mata nativa. Hoje, boa parte dessa região é dominada por plantações, especialmente de soja, e pecuária.

 

De acordo com pesquisas da UnB, o desmatamento na região pode estar por trás de secas que atingiram fortemente o centro-oeste e até mesmo São Paulo nos últimos anos. Mercedes explica que o solo do cerrado funciona como uma esponja: absorve a chuva e a umidade que vem da Amazônia e a distribui às bacias hidrográficas do resto do país, do Sudeste até o Rio São Francisco.“ A posição mais alta do Planalto Central, com solos profundos, argilosos, que funcionam como uma esponja, recebem essa água que drena depois para cursos de água no resto dos biomas, para a bacia do São Francisco, para o Pantanal”, explica.

 

“A falta de cobertura vegetal prejudica a infiltração da água no solo.”O Cerrado é propenso a queimadas naturais, causadas por raios, mas isso costuma ocorrer apenas no início da seca da região. O aumento exponencial nesta época do ano tem relação direta com desmatamento. “As queimadas estão concentradas no arco do desmatamento. Quando o produtor já converteu para agricultura e está regular, ele não quer queimar porque ele vai ter prejuízo. Mas o fogo é uma ferramenta de abertura de áreas”, diz a pesquisadora.

 

O desmatamento no Cerrado também tem relação com o aumento dos focos de incêndio do Pantanal. Apesar de ser um dos biomas melhor preservados no país, as áreas baixas que compõe o Pantanal são cercadas de áreas mais altas formadas pelo Cerrado. Desmatadas, com mais agricultura, essas áreas absorvem menos água, que escorrem menos para o Pantanal. Mais seco, ele queima mais —como se vê no aumento deste ano.

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