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Indígenas Sateré-Mawé, filhos do guaraná, são pioneiros do Slow Food no Brasil


O povo indígena Sateré-Mawé, ou filhos do guaraná, como também são conhecidos, carregam o título de inventores da cultura do fruto típico brasileiro. Espalhados em 103 aldeias pelo estado do Amazonas, nos municípios de Barreirinha, Maués e Paritins, a população, que triplicou nos últimos 30 anos, conta com aproximadamente 13,3 mil pessoas atualmente.


Eles aprenderam a domar a trepadeira silvestre, criaram o processo de beneficiamento da planta e, hoje, a cultivam de forma agroecológica, fazendo parte do movimento Slow Food, princípio que visa produzir com respeito tanto ao meio ambiente quanto às pessoas responsáveis pela produção.


Os filhos do guaraná não cultivam o fruto no modo clássico da palavra. O sistema que utilizam é melhor descrito como “semi-domesticação”. Eles coletam as sementes que caem das árvores de guaraná na floresta e as plantam nas clareiras, onde são regadas pela chuva e quase não precisam de cuidados.


“O Slow Food é um princípio que respeita todo mundo que produz o alimento, desde a terra até a panela. Diferente de quando você vai ao supermercado. Você conversa com a prateleira e é influenciado por marcas. Mas, quando você conhece o agricultor, vê que tem uma vida por trás, que ele pôs a mão para fazer, ralou a mandioca para chegar na farinha. O Slow Food propõe aproximar quem come de quem produz”, explica a consultora da Secretaria Especial da Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário (Sead) para o Slow Food, Nadiella Monteiro.


Antes mesmo da Fundação Slow Food para a Biodiversidade - que foi criada na Itália, com o objetivo de promover um modelo sustentável de agricultura que respeita o meio ambiente e a identidade cultural - despertar o interesse pelo território brasileiro e pelas riquezas aqui presentes, os Sateré-Mawé já tinham adotado a filosofia italiana.


“Praticamente somos sócios fundadores do movimento no Brasil. Começamos o trabalho em 1993, quando ninguém falava em política do comércio justo. Já trabalhamos há 25 anos desse jeito e exportamos nossos produtos”, comenta o indígena Sérgio Batista Sateré-Mawé, de 34 anos. Do guaraná, mais de 10 produtos derivados são transformados pelos indígenas. O mais popular é o guaraná em pó, que pode ser dissolvido em água, como acontece nos rituais indígenas, ou pode ser diluído em suco de frutas frescas.


Fortalezas


O povo Sateré-Mawé carrega os títulos de Fortaleza do Guaraná e Fortaleza do Néctar de Abelhas Nativas. Os dois estão intimamente relacionados, uma vez que o néctar é obtido a partir das flores da planta do guaraná. O sucesso das Fortalezas significa que elas garantem não somente a sobrevivência da espécie, mas também a cultura de um povo ameaçado pela entrada das grandes empresas multinacionais.


Origem


Fundado por Carlo Petrini em 1986, na Itália, o Slow Food tem como princípio básico o direito ao prazer da alimentação, utilizando produtos artesanais de qualidade especial. O movimento opõe-se à tendência de padronização do alimento no mundo e defende a necessidade de que os consumidores estejam bem informados, se tornando co-produtores.